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Ao mesmo tempo em que trabalha pela aprovação da abertura de processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, uma expressiva e influente bancada de deputados de vários partidos articula uma espécie de anistia ao presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Pesa sobre o peemedebista a acusação de quebra de decoro parlamentar por ter negado à CPI da Petrobrás, em março de 2015, que possuía contas secretas em paraísos fiscais. O principal argumento para livrar o parlamentar é que, sem Cunha, o pedido de impeachment não teria sido possível.

O primeiro movimento dessa operação já foi feito no Conselho de Ética, onde Cunha enfrenta julgamento desde novembro do ano passado, sem sinal de definição no horizonte. Ao contrário. O deputado Fausto Pinato (PP-SP), primeiro relator do caso no colegiado – com parecer pela abertura de processo contra Cunha –, abandonou o conselho. Alegou que ocupava uma vaga destinada ao PRB e, como trocou a legenda para o PP, diz não se sentir confortável em ocupar uma cadeira destinada a outra bancada. Durante a elaboração de seu relatório, Pinato prestou queixa formal à Polícia Federal depois de relatar ameaças.

No seu lugar foi nomeada a deputada Tia Eron (PRB-BA), evangélica como Cunha e sua admiradora declarada. Com essa manobra, o grupo pró-Cunha no conselho passou a ter maioria de votos e deve aprovar um relatório sem o pedido de cassação do mandato, como previa o pedido de abertura de processo pelos partidos PSol e Rede. Articula-se a aprovação com algum tipo de advertência ou até a simples rejeição de qualquer acusação.

Mentira social

O segundo movimento da tropa de choque de Cunha no Conselho é descaracterizar a mentira do presidente da Casa, que negou à CPI sobre suas contas secretas em paraísos fiscais – quando autoridades suíças e brasileiras dizem ter provas de que ele não só as tem como movimentou milhões de dólares e francos suíços por meio delas nos últimos anos. A estratégia sobre a desqualificação do falso testemunho mira um argumento técnico: o dinheiro que Cunha teria no exterior não seria, de fato, dele, mas sim resultado de negócios como exportação de carne.

O presidente da casa disse em sua defesa que é apenas beneficiário do dinheiro administrado por um truste criado por ele para gerir os recursos. “Vamos descaracterizar a acusação de mentira na CPI da Petrobrás com a justificativa de que não havia conta, e sim o resultado de um negócio lícito”, argumentou o deputado Carlos Marum (PMDB-MS), um dos aguerridos defensores de Cunha.

As autoridades da Suíça repassaram informações aos procuradores brasileiros informando que Cunha e sua família possuem duas contas naquele país – a Netheton Investments, da qual é beneficiário, e a Kopek, que está em nome de sua mulher, a jornalista Cláudia Cruz. Além disso, o presidente da Câmara tem outras duas contas, a Orion SP e a Triunph SP – fechadas assim que a Operação Lava Jato começou a investigá-lo. Os investigadores identificaram depósitos de US$ 4,8 milhões e de 1,3 milhão de francos suíços (montante equivalente a R$ 23 milhões) nas duas contas.

O movimento para salvar Cunha da cassação terá, depois do Conselho, sua fase em plenário. O presidente da Câmara tem pelo menos 200 deputados de vários partidos que o apoiam. A maioria compõe a Frente Parlamentar Evangélica, o seu mais aguerrido grupo de defesa. O seu apoio vem, basicamente, do mesmo grupo que o elegeu presidente da Casa, em fevereiro.

Ele também conta com a cúpula do PMDB, em que dispõe de um cargo no diretório nacional, e com sua amizade com o vice-presidente da República e presidente nacional do PMDB, Michel Temer –novo ocupante do Palácio do Planalto se o Plenário da Câmara aprovar, neste domingo (17), o julgamento da presidente Dilma pelo Senado. Mas também tem votos no PSC, legenda predominantemente evangélica, e mais alguns no PP, no PR, no PRB, em parte da bancada do Democratas e no PSDB.

Com ifnromações: Uol